Divagações e devaneios sobre as arianisses da vida!!!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Crianças negras não são bons filhos II


Como já disse em algum momento nesses posts que refletem minha infância, minha mãe sempre vendeu de tudo. Ela era uma ótima mãe, não deixava faltar nada dentro de casa, mas em determinados momentos precisava da nossa ajuda com suas vendas. Ela queria muito ser bem sucedida nisso, se esforçava horrores e vendia muito. Mas ela nunca conseguia ganhar as viagens da tupperware, o carro da mary kay ou da avon e nem qualquer grande premiação desse tipo de empresa. Eu queria poder conversar com ela hoje e explicar que não foi por acaso que ela não ganhou, que ela era preta e naquele momento nenhuma empresa queria ter pessoas negras, mesmo que fossem as revendedoras, associadas as suas marcas. Também queria explicar que o motivo dela não ter prosperado não eram seus filhos ruins, como a amiga branca dela tinha feito questão de destacar a meu respeito, mas o fato dela ser mulher, negra, nordestina e mãe solteira de três em uma sociedade machista, racista e xenófoba como a nossa. Mas as vezes eu penso, essa conversa talvez nunca ocorresse, porque algumas dessas reflexões só foram possíveis a partir do momento que ela morreu e eu tive que fazer meus corres, assim como meus dois irmãos, foi um amadurecimento forçado.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Crianças negras precisam ser apadrinhadas e adotadas


Eu tinha cerca de 10 anos quando descobri que a madrinha da minha irmã (filha da patroa da minha mãe) me queria para ela quando eu era bebê. Minha irmã tem a pele muito mais clara que a minha sempre foi a “indígena” da família, ainda assim a madrinha DELA queria adotar a MIM. Quando soube disso fiquei revoltadíssima, “porque minha mãe não me deu para uma família branca e rica?”era tudo o que eu queria saber, foi a oportunidade da minha vida. Eu perguntei para a minha mãe porque ela não me deu e ela respondeu com um simples “cala a boca, você não sabe de nada”. Essa história só voltou na minha cabeça recentemente, quando participei do debate do documentário Doméstica (2011), na Mostra de Cinema e Direitos Humanos na universidade. Aliás, se juntar esse filme com o Que horas ela volta? (2015) e o Casa Grande (2014) boa parte da minha vida aparece nessa narrativa. No Doméstica tem uma cena em que  a filha da empregada negra está no colo da patroa loira. Ela beija e abraça a bebê e fala algo do tipo que a mulher não pode sair dali porque ela ama muito aquela criança. Outra cena em que uma patroa branca narra que teve que colocar a empregada negra no lugar dela quando essa foi trabalhar na casa daquela enquanto na tela aparece o rosto cabisbaixo da mulher negra em um quartinho minúsculo também foi expressiva pra mim. Aqui acho necessário explicar que elas nem sempre foram patroa e empregada. A família da mulher negra trabalhava na fazenda da família da mulher branca e elas eram “amiguinhas” na infância e adolescência. Quando a mulher branca casou e precisou (sim porque gente branca e rica não sabe viver sem...) de uma empregada a mulher negra foi “mandada” para a cidade grande para “ajudar” a recém-casada. Quem sabe a situação de “apadrinhamento” das crianças negras e indígenas no país, que crescem trabalhando nas casas de pessoas que deveriam ser seus pais adotivos, e das empregadas que moram no emprego em situação análoga a escravidão, consegue perceber porque minha mãe não me deu grandes explicações sobre eu ir morar na casa da família branca e rica da madrinha da minha irmã.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Crianças negras podem ser magoadas


O segundo episódio que me lembro bem, eu tinha uns 9 anos. A mãe de uma colega de sala mandou um recado que queria falar com a minha irmã. Uns dois dias depois encontramos com a mulher na porta da escola, ela puxou minha irmã de canto e conversou sem que ninguém pudesse ouvir. Quando chegamos em casa minha irmã contou que a mulher tinha convidado ela para ajudar nas vendas de uma barraquinha no camelô. Eu perguntei para minha irmã porque a filha dela não ia ajudar e ela respondeu que a menina tinha vergonha que a mãe trabalhasse de camelô (eu realmente consigo imaginar o bullyng que a menina ia sofrer na escola se alguém descobrisse isso, apesar de todo mundo comprar no camelô). Acabou que a minha mãe não deixou minha irmã trabalhar com aquela mulher. Tempos depois eu conversava com a filha da camelô sobre o assunto e ela me respondeu que não queria ajudar a mãe dela porque a pele dela era branca e ia ficar queimada do sol, mas como a pele da minha irmã era escura não havia problemas com o sol, “mais preta ela não vai ficar”.  Eu fiquei pensando depois que talvez minha mãe tivesse entendido a proposta, a filha branca da mulher não podia vender no sol e nem sofrer bullyng na escola, mas minha irmã poderia já que era preta mesmo.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Crianças negras não são bons filhos


Pretendo explicar a ironia nessa frase através do que eu vivi enquanto criança. Eu estou em um momento particular da minha vida, tentando entrar no mestrado e sem R$1 no bolso, não tenho nem para fazer a inscrição em um dos programas que pretendo prestar. Diante dessa situação minha irmã, um amigo e minha companheira me deram a ideia de vender gelinho (din din, chup chup, brasinha, etc.). Eu fiz os gelinhos e na hora que estava fazendo uma placa para colocar na frente da minha casa lembrei que eu odeio vender, eu tenho um misto de vergonha com raiva de ter que vender as coisas. Nesse momento fui buscar na minha memória de onde vem tamanha aversão as vendas. Desde que me entendo por gente a imagem que tenho da minha mãe é vendendo coisas: tupperware, avon, natura, mary kay, quatro estações, hermes, hiroshima, muambas do Paraguay, bolos caseiros, doces, salgados, pães, enfim, tudo o que pudesse ser vendido ela vendia. Ela era funcionária pública, ganhava relativamente bem, mas tinha três filhos para criar (o tão famoso aborto masculino!!!), o dinheiro quase nunca dava. Não sei se ela fingia que não via ou se não percebia mesmo, os risinhos, as chacotas e os olhares cada vez que ela passava cheia de sacolas com coisas para vender, eu percebia, sempre. Naturalmente, ela queria que nós vendêssemos também, uma visão bem meritocrática da coisa toda: se nos uníssemos e nos esforçássemos conseguiríamos ter uma vida mais confortável. Eu entendo (hoje!) perfeitamente as vontades da minha mãe, era tudo tão difícil, não tinha como não querer melhorar aquela situação. Mas nunca foi tão simples assim. Quando uma criança branca chegava com algo para vender na escola era bonitinho, as outras crianças compravam, elogiavam e faziam propaganda. Quando eu chegava com algo para vender na escola elas me tratavam como uma pobre coitada (o significado da palavra coitada aqui faz todo sentido). Eu me lembro de uma situação específica e vou tentar relatar nesse post. Eu já era adolescente, tinha uns 15 anos, estava no primeiro ano do Ensino Médio e era uma época que todo mundo vendia tudo na escola: brigadeiro, pirulito de chocolate, cosméticos e por aí vai. Na famosa “feira hippie” de Ribeirão Preto estavam vendendo artesanatos de crochê com aqueles aneizinhos de latas de refrigerante e cerveja. Minha mãe, como ótima empreendedora que era, seguiu o modelo e fez bolsas, cintos e tudo o que conseguiu com aquilo, afinal era vendido por um preço absurdo na feirinha. Um dia, de tanto ela me encher levei alguns cintos pra vender na escola, se arrependimento matasse nesse momento eu estaria mortinha. Os colegas não quiseram comprar, natural, já que em Ribeirão Preto as pessoas vivem de status e era melhor pagar os olhos da cara na feirinha ao invés de comprar mais barato das mãos da preta da sala. Mas uma das meninas me humilhou, com palavras, com o olhar, com os gestos, com a atitude. Eu não tinha oferecido para ela comprar, estava oferecendo para algumas amigas minhas, ela viu e foi no meio da rodinha de meninas falar que dava R$X (eu não lembro o valor exatamente, mas era algo irrisório, não pagava nem o trabalho que a minha mãe tinha tido para fazer um cinto daquele), para me ajudar já que eu estava precisando tanto vender. Eu respondi que eu não estava pedindo esmola, estava vendendo o trabalho da minha mãe e que ela não precisava se preocupar em ajudar. A menina deu de ombros com cara de esnobe e saiu posando de boazuda para a sala toda dizendo que só quis ajudar. Eu cheguei irritada em casa, minha mãe estava com uma amiga branca na sala e perguntou o que tinha acontecido. Respondi que nunca mais levava nada para vender na escola e a amiga branca (que ninguém chamou na conversa) respondeu que eu não era uma boa filha porque minha mãe se esforçava tanto para dar uma vida melhor para a gente e eu não correspondia. Não respondi, entrei no quarto e fiquei por lá mesmo, o assunto nunca mais veio a tona, nem para saber o motivo daquela revolta.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Reflexões obrigatórias!


Estou em um momento ímpar da minha vida. A obrigatoriedade de fazer um memorial descritivo para concorrer a uma vaga em um programa de mestrado trouxe à tona algumas situações que há muito tempo tinham caído no esquecimento, não ficaram esquecidas, mas sim latentes na minha vida. Achei importante refletir sobre elas no momento que emergiram porque talvez isso alivie a grande raiva que eu sinto de tudo. Não é raiva de uma pessoa, de uma situação ou de um lugar. É uma raiva generalizada, não consigo encontrar explicações para ela, mas está sempre ali e de vez em causa uma explosão de ódio que, infelizmente, é direcionada às pessoas mais próximas. Essas reflexões são continuação do momento de limpeza pelo qual passei e continuo passando, tudo (inclusive pessoas) que não me serve, não me acrescenta e de alguma forma me atrapalha está sendo descartado. Então, nesse momento o blog vai ficar um pouquinho diferente, talvez isso passe e se não passar foda-se, vou continuar refletindo sobre coisas imediatas que me afetam. PRE-PA-RA!