Divagações e devaneios sobre as arianisses da vida!!!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Crianças negras não são bons filhos


Pretendo explicar a ironia nessa frase através do que eu vivi enquanto criança. Eu estou em um momento particular da minha vida, tentando entrar no mestrado e sem R$1 no bolso, não tenho nem para fazer a inscrição em um dos programas que pretendo prestar. Diante dessa situação minha irmã, um amigo e minha companheira me deram a ideia de vender gelinho (din din, chup chup, brasinha, etc.). Eu fiz os gelinhos e na hora que estava fazendo uma placa para colocar na frente da minha casa lembrei que eu odeio vender, eu tenho um misto de vergonha com raiva de ter que vender as coisas. Nesse momento fui buscar na minha memória de onde vem tamanha aversão as vendas. Desde que me entendo por gente a imagem que tenho da minha mãe é vendendo coisas: tupperware, avon, natura, mary kay, quatro estações, hermes, hiroshima, muambas do Paraguay, bolos caseiros, doces, salgados, pães, enfim, tudo o que pudesse ser vendido ela vendia. Ela era funcionária pública, ganhava relativamente bem, mas tinha três filhos para criar (o tão famoso aborto masculino!!!), o dinheiro quase nunca dava. Não sei se ela fingia que não via ou se não percebia mesmo, os risinhos, as chacotas e os olhares cada vez que ela passava cheia de sacolas com coisas para vender, eu percebia, sempre. Naturalmente, ela queria que nós vendêssemos também, uma visão bem meritocrática da coisa toda: se nos uníssemos e nos esforçássemos conseguiríamos ter uma vida mais confortável. Eu entendo (hoje!) perfeitamente as vontades da minha mãe, era tudo tão difícil, não tinha como não querer melhorar aquela situação. Mas nunca foi tão simples assim. Quando uma criança branca chegava com algo para vender na escola era bonitinho, as outras crianças compravam, elogiavam e faziam propaganda. Quando eu chegava com algo para vender na escola elas me tratavam como uma pobre coitada (o significado da palavra coitada aqui faz todo sentido). Eu me lembro de uma situação específica e vou tentar relatar nesse post. Eu já era adolescente, tinha uns 15 anos, estava no primeiro ano do Ensino Médio e era uma época que todo mundo vendia tudo na escola: brigadeiro, pirulito de chocolate, cosméticos e por aí vai. Na famosa “feira hippie” de Ribeirão Preto estavam vendendo artesanatos de crochê com aqueles aneizinhos de latas de refrigerante e cerveja. Minha mãe, como ótima empreendedora que era, seguiu o modelo e fez bolsas, cintos e tudo o que conseguiu com aquilo, afinal era vendido por um preço absurdo na feirinha. Um dia, de tanto ela me encher levei alguns cintos pra vender na escola, se arrependimento matasse nesse momento eu estaria mortinha. Os colegas não quiseram comprar, natural, já que em Ribeirão Preto as pessoas vivem de status e era melhor pagar os olhos da cara na feirinha ao invés de comprar mais barato das mãos da preta da sala. Mas uma das meninas me humilhou, com palavras, com o olhar, com os gestos, com a atitude. Eu não tinha oferecido para ela comprar, estava oferecendo para algumas amigas minhas, ela viu e foi no meio da rodinha de meninas falar que dava R$X (eu não lembro o valor exatamente, mas era algo irrisório, não pagava nem o trabalho que a minha mãe tinha tido para fazer um cinto daquele), para me ajudar já que eu estava precisando tanto vender. Eu respondi que eu não estava pedindo esmola, estava vendendo o trabalho da minha mãe e que ela não precisava se preocupar em ajudar. A menina deu de ombros com cara de esnobe e saiu posando de boazuda para a sala toda dizendo que só quis ajudar. Eu cheguei irritada em casa, minha mãe estava com uma amiga branca na sala e perguntou o que tinha acontecido. Respondi que nunca mais levava nada para vender na escola e a amiga branca (que ninguém chamou na conversa) respondeu que eu não era uma boa filha porque minha mãe se esforçava tanto para dar uma vida melhor para a gente e eu não correspondia. Não respondi, entrei no quarto e fiquei por lá mesmo, o assunto nunca mais veio a tona, nem para saber o motivo daquela revolta.

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