Divagações e devaneios sobre as arianisses da vida!!!

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O desprazer de ser um corpo descartável



Há algum tempo venho pensando na minha falta de jogo de cintura em manter amizade com pessoas com quem tive relacionamentos. Achei que fosse algo comum, mas aparentemente outras lésbicas conseguem essa façanha.

Em um desses finais de relacionamento, devido a minha militância e da parceira em questão, lembrei das falas de um curso sobre feminismo negro que participei. A fala foi de um homem negro, explicando como o negro é considerado somente um corpo na nossa sociedade racista. Um corpo para o trabalho, um corpo para o prazer, mas somente um corpo. 

Fiquei pensando como as pessoas me paqueram e como as falas estão sempre relacionadas a minha beleza (não que eu me ache bela), a minha cara de má, as possibilidades do que eu posso ou não fazer na cama. São sempre em relação ao corpo. E aí é que mora o perigo. Não estou falando aqui de pessoas do senso comum, geralmente as relações são com lésbicas negras militantes, que discutem as mesmas questões que eu. 

Mesmo não sendo a grande postadora de textões ou fotos lindas em redes sociais algumas mulheres me descobrem e falam comigo através desses canais. E já partem para a conquista do objetivo: pegar esse corpo. E depois de pegar os caminhos são dois: me dispensam, sem a menor consideração ou remorso por não mais me quererem; ou me torno o corpo a ser exibido, nesse caso me caçam até que a relação se torne um namoro e me cobram papéis que eu nunca me mostrei disposta a desempenhar. Obviamente os dois caminhos magoam. No caso do primeiro o sentimento de ter sido usada é cruel e doloroso. A cabeça pensa e repensa no que poderia ter sido feito diferente enquanto a única resposta que meu corpo dá é chorar.

Mas o segundo é mais nocivo, porque se você é um corpo para exibir há papéis que você deve cumprir como: aparecer para as amigas (claro!) mesmo que elas não façam parte do mesmo universo que o seu e isso te incomode; andar nas ruas de mãos dadas e demonstrar carinho em público, ainda que você viva em uma sociedade sexista e lesbofóbica que vai te espancar até você morrer. Obviamente que eu vejo um ato político em quem faz isso, mas eu tenho muito medo porque nem marcha e nem cartaz algum vai trazer minha vida de volta caso algo aconteça, sem contar ter que viver com traumas de espancamento ou estupro corretivos. Mas sendo um “troféu” experimente não realizar esses papéis pra ver só o que acontece...

Em algum momento essa conta deixa de bater e as coisas desandam, mas elas já não batiam há muito tempo. Buscando na memória, as pessoas não sabem do que eu gosto, não se interessam pelo o que eu faço, minha personalidade é uma incógnita, no máximo signo, idade e local de moradia. A questão aqui é que um corpo para ser exibido exige que se tenha uma relação mais longa que uma ficada e as pessoas são obrigadas a me conhecerem. Geralmente elas descobrem minha baixa auto estima, meu amor por filmes e meu apreço por tecnologias, mas conhecem também minha capacidade explosiva, falta de filtro na língua e meus momentos de sofrimento em silencio.

O corpo para ser exibido tem uma segunda função: o prazer a longo prazo! Afinal se é para ser exibido, desperta a libido com base na aparência física. Mas é um corpo para dar prazer e não para receber. Não há grandes tentativas de descobertas desse corpo, ele não precisa receber nada em troca do prazer.

E quando esse corpo cansa de ser usado para o prazer a relação acaba. Mas acaba mesmo. Se sua língua não está servindo para chupar e seus dedos para foder não há motivo para a relação continuar. Não há motivo para estabelecer uma amizade com um corpo, afinal nem o que esse corpo gosta é sabido, não fazem parte do mesmo mundo, estabelecer um diálogo que vá além do sexo e das funções a serem cumpridas por ele não se faz necessário.

O corpo está livre, já tem pessoas de olho, urubuzando. E aí começa novamente ritual de conquistar esse corpo para te dar prazer imediatamente ou a longo prazo e para exibi-lo. Não há um disfarce, as cartas e as jogadas são as mesmas, há inclusive uma disputa. E então o corpo que procura uma companheira pra vida, que já discutiu e rediscutiu a solidão da mulher negra, se entrega novamente nessa realidade para talvez, enfim, descobrir com quem passará o resto dos seus dias com a única certeza de que será uma lésbica negra militante.

PS: esse texto escrevi em um momento cheio de mágoas, era pra virar um ensaio mas achei melhor só postar aqui mesmo!

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